Filmes

Indústria Americana – Sinais dos novos tempos

O documentário vencedor do Oscar é mais do que apenas o choque entre culturas. É a forma preocupante como o trabalho é encarado na China.

No último domingo, aconteceu em Los Angeles mais uma edição dos Oscars. Acabou sendo eternizado por Parasita, de Bong Joon-Ho, que se tornou o primeiro filme em outra língua, senão o inglês, a ganhar o prêmio de melhor filme. Mas de Parasita eu já falei em outro artigo. Hoje, eu quero falar sobre um outro ganhador de Oscar, o de melhor documentário. Indústria Americana mostra a mudança de vida de Moraine, Ohyo, uma pequena cidade nos Estados Unidos, onde acontece um choque de culturas e as consequentes mudanças, quando a Fuyao Glass America, subsidiária da chinesa Fuyao Glass, é implantada onde antes funcionava uma fábrica da General Motors.

Num olhar geral, Indústria Americana pode ser encarada como uma grande propaganda americana contra o avanço de chineses em sua economia. Ao assistir ao documentário, você a perceber que talvez eles, os americanos, não tenham que se esforçar muito para mostrar os chineses como maus: Basta mostrá-los trabalhando.

O choque China X USA

O documentário mostra a cultura de trabalho chinesa, desde apenas duas folgas por mês, a pais e mães de família que só conseguem ver seus filhos uma ou duas vezes por ano, trabalhando em turnos de 12 horas por dia. O tempo todo, há o confronto com o estilo de vida e de trabalho americanos. Chega a ser totalmente desconfortável e desrespeitoso o modo com alguns chineses, em posições mais altas dentro da fábrica, falam sobre os americanos. Em certos pontos, eles chegam a dizer que os americanos são preguiçosos por não querem trabalhar mais, sendo que eles já trabalham 8hrs por dia, 5 dias na semana.

From the film AMERICAN FACTORY

Há, ainda, um trabalho constante dos chineses para impedir que os trabalhadores americanos se sindicalizem. Há o temor da fábrica perder dinheiro, caso tenham que tratar problemas dos funcionários com um sindicato. Isso, quando começamos a ver que as condições de trabalho na América não são boas, mas são ainda piores na fábrica chinesa.

Durante o documentário, vemos os chineses orgulhosos em estar na empresa, e aparentemente é isso que lhes trazem felicidade. Ou será que é uma lavagem cerebral constante?

Isso me lembra o grande irmão…

Não foram poucos os momentos, onde a fábrica da Fayao Glass na China é mostrada, que me lembraram o livro “1984” (que eu preciso escrever sobre aqui no blog, em algum momento).

O clima de comunidade onde é preciso priorizar o todo frente ao indivíduo, e as péssimas condições de trabalho, foram elementos que me fizeram lembrar de Winston, e o quanto eu torcia para que ele vencesse tudo aquilo. Mas nós sabemos que não foi bem assim.

Futuro sombrio

O documentário termina com uma visão pessimista para o que virá depois. Os trabalhadores americanos, considerados preguiçosos por seus pares asiáticos, começam a ser substituídos por máquinas. Elas podem trabalhar continuamente, todo o dia, o ano todo, enquanto não apresentarem algum tipo de problema.

Realmente, me deixou perplexo o ideal de eficiência que os chineses buscam. Se queriam trabalhadores como máquinas, agora cortam o meio-termo que usam máquinas, em si. Eles já não se importavam com as pessoas, mesmo.

10/10