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O Poço, a mensagem e a panacota

Em “O Poço”, a divisão e a solidariedade das pessoas é a única forma de sair vivo daquele lugar. Mas quem disse que é tão fácil?

Você já deve ter se deparado, em alguma rede social, com um meme de alguma coisa que poucos gostam de comer, sobre uma plataforma, em dois quadros: Um num nível bem mais acima que o nível da segunda imagem. Pois bem. Esse meme vêm do filme O Poço, uma produção espanhola que chegou ao Brasil no último mês de março. Este filme é um original da Netflix.

Nessa história, temos Gorang. Ele é um homem que aceita entrar no Poço, em busca de um certificado, mas que não sabemos de quê. Ao longo, vemos sua estadia dentro daquele lugar, enquanto ele – e o espectador – vão descobrindo o real significado do Poço.

Vou tentar evitar spoilers por aqui, mas isso é realmente complicado de fazer. Isso, por conta das informações que o filme nos dá. Tudo o que pode ser dito é spoiler, tudo o que nos é mostrado é base para teorias. Tudo, tudo, para que no final… Não tenhamos uma resposta. Mas tenho uma forma de explicar o filme – sem entregar toda a sua história.

A principal teoria

Imagine um rebanho grande, em um pasto vasto. Todos os animais que estão à frente tem mais capim para comer do que o que está atrás. A situação vai piorando até chegar nos últimos, onde provavelmente não há mais capim algum para comer. Esta é uma ótima explicação da tragédia dos comuns, que eu explico mais à frente, mas também uma alegoria ótima para entender este filme sem dar muitos spoilers – mas é inevitável.

O que dá para tirar de O Poço é que ele foi concebido como uma crítica. Sabemos que a comida está em uma plataforma que vai descendo a cada andar. Quando mais alto a pessoa estiver, mais comida ela terá. Se você está no andar 6, por exemplo, você tem uma fartura para se deliciar. Se você está no 150… Bem, se viver mais do que 10 dias, você já poderá se considerar um guerreiro.

Nós vemos a vivência de Gurang com três pessoas distintas na história. O primeiro, Trimagasi. Um homem que sabe como o Poço funciona, e dá ao protagonista, e a nós, uma ideia geral de como é o Poço. Depois, Imoguiri, uma mulher que prestava serviços à Administração do Poço, e que agora está também dentro dele, sofrendo como qualquer outra pessoa. Por fim, Baharat, um homem que busca sair daquele inferno.

O quebra-cabeças de personalidades

Temos aí, uma sequencia de pessoas que se completam em seus discursos, apesar de nunca se verem. Trimagasi fala constantemente sobre como não se pode confiar em quem está acima de si, e que usa deste argumento para também não se importar com quem estiver abaixo. Imoguiri conta que o Poço funcionaria ao seu propósito se todos ali dentro praticassem a solidariedade espontânea. E Baharat depende dessa tal solidariedade, para conseguir o seu objetivo de subir os andares até chegar ao nível mais alto, para sair de lá. E, neste caminho, vemos a mente de Gurang sendo modificada por cada um desses discursos.

Existem outras figuras estranhas, claro. Principalmente a de Miharu. Trimagasi diz que ela está atrás de seu filho, que também está no Poço. Apesar disso, Imoguiri nos conta que no Poço não há ninguém com menos de 16 anos de idade. Ou esta suposta criança foi gerada lá dentro, o que pode nos contar sobre quanto tempo alguém pode ficar naquele lugar e o quão ruim é, ou desconfiar de Miharu, o que não é difícil.

A tragédia dos comuns e O Poço

O filme é uma grande forma de exemplificação da teoria da Tragédia dos Comuns, que eu exemplifiquei acima, no caso do gado no pasto. Segundo a Wikipédiaa hipótese levantada pela “tragédia dos comuns” declara que o livre acesso e a demanda irrestrita de um recurso finito termina por condenar estruturalmente o recurso por conta de sua superexploração. Neste filme, esse recurso é a comida. O livre acesso está nos níveis superiores mais próximos ao zero, e a condenação deste recurso está nos níveis mais abaixo, como pode-se ver em grande parte do filme.

Enquanto há pacificidade e humanidade nos que estão mais acima, pois ainda se têm os recursos para tal, os que estão mais abaixo recorrem a barbárie para se manterem vivos, até poderem mudar sua situação na troca periódica de andares.

Afinal, qual é a mensagem?

Na minha visão, não há o que teorizar sobre o filme, apenas sobre a mensagem. Na parte final, numa tentativa de quebrar essa lógica do poço, enviando uma espécie de mensagem ao andar mais acima. Se aquela estrutura é uma alegoria a teoria da tragédia do comum, quebrá-la seria mostrar que comida, o recurso, sobrou.

Não vou explicar melhor isso, até porque estou tentando evitar spoilers neste texto. Mas pense no egoísmo.

Egoísmo é a peça central sobre O Poço. Todas as ações naquele lugar são entorno do egoísmo, e a quebra do que é considerado o comportamento padrão ali, é parte disso.


Vou evitar começar a explicar mais sobre o filme, para não estragar a ótima experiência que o filme nos passa. Apenas assista. É um ótimo thriler de ficção científica, que ao buscar mostrar uma teoria de sociologia aplicada a uma situação, deixa passar mais perguntas do que respostas.