Séries e TV

A Primeira Tentação de Cristo é ousado e eficaz

Apesar de todo o burburinho que surgiu depois de seu lançamento, tenho que dizer que este é um dos melhores trabalhos do Porta dos Fundos, em 2019!

Eis aqui, algo que pode acabar irritando muitos, mas não me importo. Eu realmente gostei muito do Especial de Natal do Porta dos Fundos, de 2019, para a Netflix. Não é de hoje que eu sou fã do Porta, e do texto deles, e este média-metragem é um exemplo do trabalho amadurecido do Porta dos Fundos, em questão de cenografia e fotografia, talvez nem tanto em texto. Mas vamos por partes.

Nesta paródia, somos apresentados a Jesus Cristo, retornando do deserto depois de 40 dias. Quando volta para casa, onde é esperado por Maria, José, seu “tio” (que na verdade é Deus), os três reis magos, sendo que um levou uma prostituta para a festa, além de outros personagens. O ponto principal é quem vem com Jesus: Humberto, um homem com feições afeminadas, que a história dá a entender que eles têm uma relação homo afetiva, apesar de em nenhum momento isso ser dito ou demonstrado.

As polêmicas e os acertos

Este foi o ponto que mais gerou burburinho na internet, mas que eu realmente gostei. Representar Jesus e Humberto, como foi mostrado, foi interessante para a criação de uma narrativa que foge do comum. Mais ao final do filme, nós descobrimos quem é, de fato, Humberto. Seria apenas mais do mesmo, se ao invés da figura de Humberto, tivéssemos uma mulher, que no final seria indicada como “a raiz de todo mal”, como já acontece há muito tempo. Usar desse subterfúgio é uma forma de evitar a repetição de estigmas já enraizados.

Eu até entendo que alguns grupos sentiram-se ofendidos com este tipo de representação. O que não podem dizer, é que o Porta dos Fundos não brinca com outras religiões. Todas, em algum nível, já foram alvos de suas paródias. Podem até dizer que não falaram de Maomé, mas tendo em vista tudo o que acontece com quem faz humor com sua figura, eu não os culparia.

É difícil falar deste filme, sem lembrar que é um filme do Porta dos Fundos. Alguns absurdos são interessantes, como Deus presentear Jesus com um teclado, e ainda dizer que vai lhe ensinar a tocar Beatles, mais de 1900 anos antes da referida banda surgir. No fim, este filme é uma grande esquete do Porta, com uma produção acima do normal para o grupo de humor.

No fim, é o Porta dos Fundos em tamanho maior

O resultado que eu tive, ao final dos quase 50 minutos de filme, é que esta foi a primeira parte de algo maior. Não me surpreendo se, em 2020, tivermos uma parte 2 dessa saga, já que há alguns furos de roteiro que poderiam ser explorados em uma continuação, e outras pontas que ficaram soltas, ao término. Eu suspeito que isso não acabará tão cedo. E que bom, pois quero ver como este Jesus, que está se descobrindo, irá lidar com o fardo de ser Deus.